Da Novidade à Longevidade – Adi Oasis E Incognito Invadem O Jazzmasters

Este Jazzmasters funciona como um retrato muito claro de maturidade do soul contemporâneo apresentando identidade e produção refinada. Um programa sem artificialidade, mas com todos os elementos de inteligência e sensibilidade bem humanas.

Foto: Jean-Paul “Bluey” Maunick (Incognito)

Adi Oasis começa com “Stuck In My Head” um neo-soul que foge do lugar-comum. Sua parceria com Carrtoons cria uma arquitetura sonora mais elástica, onde o baixo conversa com texturas quase jazzísticas e a voz entra com influências de divas clássicas, sim, mas reinterpretadas com personalidade. Logo depois, Incognito mostra por que longevidade, no soul, não é acidente. “Can’t Be A Fool” mantém o DNA da banda intacto, arranjos orgânicos, músicos de alto nível e uma condução estética precisa de Jean-Paul “Bluey” Maunick. A presença de Natalie Duncan nos vocais reforça essa capacidade do coletivo de se renovar sem diluir identidade (assista ao vídeo). Aqui está um ponto interessante, mostrando Adi Oasis empurra o gênero para frente e Incognito provando que o modelo por eles criado e tradição bem administrados continua sendo muito contemporâneo. O fechamento com D-Influence e “Magic” amarra o bloco com um olhar histórico, o acid jazz britânico dos anos 90 como ponte entre o soul clássico e o que viria depois.

Foto: Soul For Real

Simon Grey constrói “Mamas Cookin’” com uma lógica quase jazzística, onde cada músico ocupa um espaço funcional claro. A presença de Michael League reforça essa sofisticação harmônica, enquanto manda bem no conceito da faixa, que é encontrar grandeza no cotidiano, alegria nas mínimas coisas. Em contraste direto, Soul for Real traz “Every Little Thing I Do”, que evidencia um problema recorrente do R&B atual: poucos conseguem replicar a simplicidade eficaz dos anos 90. Aqui, melodia e leveza resolvem tudo sem excesso de produção. Já Forrest Robinson com seu Funk Asylum propõe algo mais ambicioso: não é ficar na onda do revival, mas reconstrução cultural. “A Night to Remember” trabalha com arranjos densos, metais em evidência e uma estrutura rítmica que remete diretamente a Earth, Wind & Fire com Ralph Johnson na produção, mas com intenção declarada de continuidade, não nostalgia.

Foto: Jordan Rakei

Dylan Chambers aparece com “Love Like This” soul com vocação pop, eficiente, e funciona bem. Já Jordan Rakei, ao lado de Tom McFarland, entrega “Easy To Love” com uma sofisticação mais relevante: groove contido, produção minimalista e foco na dinâmica. Alex Cherney fecha esse bloco com “Pool Party”, um exercício bem resolvido de disco contemporânea, gravação analógica, sensação de espontaneidade e construção coletiva.

Foto: Lion Babe (Jillian Hervey e Lucas Goodman)

Na última sequência, Searchlight com “Long Time” trabalha uma fusão interessante entre broken beat, jazz e house, com referências claras à escola de Detroit. Já o duo Lion Babe mantém sua assinatura em “Flowers”: R&B eletrônico com foco em textura e atitude, mais voltado à ambientação do que à construção melódica. E Louie Vega encerra com autoridade. Sua releitura de “Last Night A DJ Saved My Life” não tenta reinventar, faz algo mais difícil: atualizar sem perder o fundamento. Groove, dinâmica de pista e respeito à tradição do House.

No geral, esse Jazzmasters deixa um ponto claro: o futuro do Soul não está em ficar olhando para trás como saudade e algo passado , mas em saber entender e editá-lo para novas gerações. E nisso, Adi Oasis e Incognito são exemplares. Um aponta para frente, o outro sustenta o clássico. E isso continua mantendo o gênero vivo.

Ainda não ouviu? Ouça o Jazzmasters aqui.

Incognito ao vivo no Blue Note Milão, apresentando “Cant´t Be A Full” do seu álbum mais recente ‘Music Magic Ironic’, mostrando que Jean Paul “Bluey” Maunick mantém sua genialidade e talento com uma das bandas mais clássicas e icônicas do Acid Jazz.

Assista:

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