Abrimos o ano oficial no Brasil pós-carnaval deixando o groove entrar entre o vinil e o streaming, entre o soul clássico e a eletrônica elegante, entre o respeito à história e a ousadia do presente.

The Allergies abrem com “Coming on Strong”. Formado por DJ Moneyshot e Rackabeat, o duo britânico construiu reputação com sets só em 45 rotações e uma estética que mistura breaks de hip-hop clássico, metais à la Stax e linhas de baixo gordas de boogie. Antoine Bourachot, produtor francês ligado à cena soul-jazz parisiense, surge depois com “Traveling” como quem carimba passaporte. Seu teclado conduz uma viagem que vai do afro groove ao jazz-funk, equilibrando técnica refinada e sensibilidade pop. É sofisticado, mas acessível. E então vem o momento especial do bloco: MonsieurWilly com Natalie Nova em “I Believe In Miracles”. Aqui há história. O título remete ao clássico das The Jackson Sisters, cultuado por DJs desde os anos 70. Monsieur Willy recria a canção com respeito e ousadia: adiciona tempero jazz latino, percussão sincopada, clima de verão e uma produção analógica que soa quente. Natalie Nova canta com doçura e potência, sem caricatura. O resultado é milagre mesmo em vinil de 7 polegadas, edição limitada. Respeito é bom — e a pista agradece.

Gringo the MC entra com “Ball is Life” trazendo a rua para o salão. Nascido Michael James Aufenkamp Jr., em Nebraska, ele migrou do folk acústico para o hip-hop depois que uma gravação “de brincadeira” ganhou atenção. Sua trajetória tem capítulos turbulentos — problemas legais, recomeços, Houston, estúdio 936, mas a música é como superação. Kamomille — duo francês formado por Anna.T e Lemine — representa a geração que ama o boogie oitentista, mas produz com tecnologia de hoje. “Just Do It” mistura electro-funk, nu-disco e soul dançante. Música feita “à mão”, como eles fazem questão de frisar, num tempo em que a inteligência artificial invade tudo.E então o refinamento de Vernon Burch em “Never Can Find The Way (Hot Love)”. Lançada em 1979 no álbum Get Up, Burch — ex-colaborador do Bar-Kays — representa o soul sofisticado do fim dos anos 70. Seu trabalho foi sampleado por gerações posteriores, e ele virou nome cult nas caixas de DJs de rare groove.

Chega o Segundo Set do Jazzmasters e pousamos em 1976, The Kay Gee’s gravavam “Keep on Saying” sob a sombra protetora da família Bell, do Kool & The Gang. Kevin Bell na guitarra, Ronald Bell na produção. O grupo de Jersey City ajudou a pavimentar a ponte entre o funk orgânico e o embrião do que viria a ser o hip-hop. Voltamos ainda mais no tempo com The Isley Brothers e “My Love Is Your Love (Forever)”. Formados nos anos 50 em Cincinnati, os Isleys atravessaram gerações: do gospel ao R&B cru, da fase Motown ao funk elétrico dos anos 70. Poucos grupos acompanharam tantas mudanças culturais mantendo identidade. Amor, posicionamento, assinatura vocal inconfundível. The J’s, banda interracial da Filadélfia formada no fim dos anos 50, chegam com “When Did You Stop (Short Version)”. Em 1977, já navegavam pelo soul sofisticado com ecos de doo-wop e funk leve. Música com identidade, algo que o Jazzmasters sempre defendeu.

E partimos para o final do programa com Sweet Candies, trio vocal feminino idealizado por Nerio “Papik” Poggi. Ele recria “Dance A Little Bit Closer”, clássico de Charo, associado à Salsoul Orchestra de Vincent Montana. Inspiradas por Sister Sledge e Love Unlimited, elas resgatam o espírito disco com arranjo luxuoso e baixo que evoca Bernard Edwards. Papik, nome importante do nu-jazz italiano, traz sofisticação europeia sem tirar o calor da pista. Al Green aparece com “Take Me To The River”, originalmente lançada em 1974 no álbum Al Green Explores Your Mind. Mistura sensualidade e fé, sagrado e profano — marca registrada do soul de Memphis. E fechamos com monolog e Saucy Lady em “Hey Mr. DJ”, uma celebração ao curador da noite. Saucy Lady, figura constante da cena boogie de Chicago, une-se ao produtor Yuki Kanesaka para uma faixa que reverencia Zhané e a cultura do DJ, essa figura central que transforma música em narrativa coletiva.
Esse é o Jazzmasters: passado, presente e futuro conversando na mesma frequência e seguimos contando histórias.
Ainda não ouviu? Ouça o Jazzmasters aqui.
Em 1994, o duo Zhané (Renée Neufville e Jean Norris-Balyor), lançava o seu álbum de estreia chamado Pronounced Jah-Nay e uma das faixas se tornou a queridinha apresentando o grupo de New Jersey Naughty by Nature na produção. O som ficou eterno e rende homenagens até hoje, como Saucy Lady que regravou ´Hey Mr. DJ´ ao lado de monolog. Essa você ouve em nossa programação da semana. A original você assiste no vídeo a seguir: