Esta edição do Jazzmasters vai do electro-boogie elegante de Kylie Auldist às arquiteturas espirituais e políticas do SAULT. O programa atravessa cinco décadas de soul, funk, disco, jazz e R&B sem nostalgia gratuita. Aqui, clássicos dialogam com novas vozes com a mesma identidade, resistência e celebração.

As três primeiras faixas apresentam um soul contemporâneo que respeita a tradição e claro, lá vem ela, Kylie Auldist abre o programa com “Everythink”, reafirmando por que sua voz se tornou um elo entre o soul clássico e o moderno. Há algo de Nova York início dos anos 80 no uso dos sintetizadores, mas também uma escrita pop clara, direta, acessível. Em seguida, “How Long”, do Ace, lembra que o soul sempre conversou com o pop britânico e que Paul Carrack foi um dos grandes mediadores dessa ponte. “Damaged Heart”, do The Tibbs, fecha o bloco com uma leitura moderna do soul setentista, carregada de arranjos orgânicos e respeito absoluto à tradição.

As próximas três músicas mergulham em herança e autenticidade. Napoleon Demps surge como uma espécie de guardião do soul clássico, trazendo para o presente o espírito da Stax e da Daptone: voz crua, emoção direta, sem ornamento desnecessário ao lado dos Dap-Kings. Em “Tonight You Might”, o projeto Synthia com Lady Wray atualiza o boogie com inteligência, provando que groove e sofisticação nunca saem de cena quando há musicalidade de verdade. Já Brandon, com “Tidal Wave (Lola’s Theme)”, amplia o espectro, trazendo uma estética cinematográfica, lo-fi e jazzística, onde batidas, cordas e atmosferas funcionam mais no emocional do que como faixa de pista.

O segundo set vem com os metais de Takuya Kuroda, em “Change”, reafirmando o jazz como música viva, urbana, dialogando com soul, hip hop e espiritualidade moderna. Raquel Rodriguez traz um R&B luminoso, que carrega a herança de Los Angeles sem nostalgia, equilibrando calor humano e produção contemporânea. Syleena Johnson, por sua vez, representa continuidade: filha direta da tradição soul da Hi Records, sua interpretação carrega dor, força e maturidade emocional, lembrando que o soul sempre foi, antes de tudo, narrativa pessoal transformada em música coletiva.

O bloco final é onde o programa se expande e aprofunda seu discurso. Lou’ana traz uma aura quase mística, misturando blues, soul e performance visual com uma intensidade rara. Scrimshire constrói uma ponte elegante entre jazz, boogie e eletrônica, apostando na esperança como conceito musical, algo cada vez mais raro e necessário. E então surge o ponto de gravidade da edição: SAULT. “Son Shine” não é apenas uma faixa, é um manifesto silencioso. O coletivo britânico transformou anonimato em discurso e música em ferramenta de reflexão, espiritualidade e afirmação negra. Em SAULT, o groove nunca é gratuito: ele carrega história, dor, resistência e futuro. Ao fechar o programa, o grupo reafirma que a música negra não precisa pedir espaço, ela cria seu próprio território, com beleza, força e consciência.
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Lou’ana, quer dizer Mulher Guerreira, mas também, é a junção dos nomes da avó e da mãe desta cantora que vem da Nova Zelândia. O single música que é um dos destaques desta edição teve financiamento público da NZ On Air, formalmente conhecida como Comissão de Radiodifusão , uma entidade autônoma do Governo da Nova Zelândia responsável pelo financiamento de radiodifusão e obras criativas. A comissão opera em grande parte separada da política governamental, mas deve seguir as diretrizes do Ministro da Radiodifusão. A NZOA é responsável pelo financiamento de conteúdo de radiodifusão pública em televisão, rádio e outras plataformas de mídia. É também uma importante investidora em produtores independentes da Nova Zelândia.
Graças ao financiamento, depois de uma série de análises e critérios, pudemos ter o talento da Lou’ana aqui no Jazzmasters.
Assista ao vídeo de ‘Move Along’: